Orelha era um cão comunitário que vivia há cerca de 10 anos na região da Praia Brava, em Santa Catarina, cuidado por moradores e comerciantes locais. Foto: Reprodução redes sociais

O caso do cão morto por adolescentes e que gerou repercussão nacional deve ligar o alerta dos pais para o comportamento dos filhos e o convívio familiar

A brutalidade da morte de Orelha – o cão idoso de rua espancado por adolescentes em Praia Brava, em Florianópolis (SC) – gerou revolta nacional e foi até notícia internacional. A repercussão se deu por uma série de fatores que vão desde o carinho dos moradores que cuidavam do animal que tinha 10 anos e não fazia mal a ninguém, até o fato dos agressores serem menores de idade. Nesse triste episódio ficaram algumas perguntas: como meninos tão jovens podem ser tão cruéis? De quem é a responsabilidade? Como prevenir e identificar comportamentos errôneos dos filhos?

De acordo com o doutor em psicologia e psicanalista, pastor Edson de Oliveira, não existe adolescente que se torne violento do nada, de um dia para a noite. Há vários fatores que podem levar a esse tipo de comportamento que vão desde o ambiente familiar tóxico, onde há muitas brigas e discussões, até questões genéticas.

“Há estudos que mostram que algumas crianças se tornavam agressivas porque os pais eram agressivos com elas. Então, era uma forma de se defenderem. Como apanhavam muito em casa, elas aprendiam a bater na rua. Começam a desenvolver a crueldade a partir dos próprios pais. E há criança que já nasceu com a genética tendenciosa para agressividade porque herdou dos seus próprios pais”, afirma Oliveira.

Segundo ele, até a gravidez pode determinar o temperamento do filho que ainda irá nascer. O doutor explica que, geralmente, meninos agressivos possuem o nível de cortisol (conhecido como o hormônio do estresse) bem mais alto que o normal. Isso afetaria o córtex pré-frontal, responsável pelo controle dos impulsos.

“Uma mulher que no período da gestação passou por muitos problemas, maus-tratos, então esse excesso de cortisol passaria ao bebê, afetando a região onde estão os impulsos e as emoções. Isso não é um determinismo da biologia, em que toda a gravidez conturbada formará uma pessoa assim. Não é isso, mas é um fator a ser analisado também”, explica.

Na opinião do doutor, não há apenas um ator responsável por essa situação. Ele acredita que todo ambiente construtor de limites, como pais, escolas e igrejas têm o seu nível de responsabilidade na formação do caráter das crianças. Mas a base mais importante nesse processo é a estrutura familiar.

“São pais que não têm mais autoridade na educação dos seus filhos. E se não houver essa hierarquia na estrutura da família, a criança passa a mandar. Então, esse é um problema sério. No passado, quando os pais olhavam sérios para os filhos, eles já entendiam o recado. Hoje, é o contrário. São os filhos que olham para os pais, que têm que entender o recado para fazer a vontade das crianças. Uma total inversão de valores”, alerta Oliveira.

O especialista diz ainda que a atual sociedade, que procura castrar a autoridade dos pais e quer ditar a forma de correção, também tem contribuído para uma geração mais desafiadora, que questiona o comando do pai e da mãe, que se isola nas telas e em jogos que estimulam a violência o tempo todo.

Pais devem estar atentos ao comportamento dos filhos

Já a psicóloga especialista em neuroaprendizagem Martha Zouain, faz um alerta aos pais: fiquem atentos ao comportamento dos seus filhos. Segundo ela, não se trata apenas de um “dia difícil” ou de uma crise pontual, mas de padrões repetidos e escalada de comportamento abruptamente e sem razão aparente.

“Alguns sinais de alerta são: prazer em humilhar ou machucar, frieza após causar sofrimento, ausência de culpa ou remorso, agressividade recorrente, explosões desproporcionais, manipulação, ameaças, intimidação, mentiras frequentes, fascínio persistente por violência, isolamento intenso, mudanças bruscas de amigos, envolvimento com grupos que reforçam transgressão e desumanização. E um sinal gravíssimo, que nunca deve ser ignorado: agressão a animais. Isso exige atenção imediata, presença firme de adultos e, muitas vezes, avaliação especializada”, orienta.

A psicóloga ressalta ainda que quando um comportamento violento não encontra limite claro, consequência proporcional e responsabilização, ele tende a se fortalecer. Ou seja, a criança aprende rapidamente duas mensagens perigosa do tipo “eu posso” e “nada acontece”.

“Com o tempo, a violência pode escalar em intensidade, frequência e alcance. Mas é preciso diferenciar correção de violência. Corrigir não é humilhar, bater, ameaçar. Isso só reforça o que se quer combater. Corrigir é: limite consistente, supervisão real, consequência justa, responsabilização, reparação do dano e construção de empatia. Em situações mais graves, é também buscar ajuda profissional, com firmeza e sem demora”, justifica Zouain.

A importância da prevenção

Além disso, a especialista diz que é necessário prevenir para evitar situações como aconteceu no caso do Orelha. “Prevenção não é evento; é rotina. Ela se sustenta com vínculo e presença emocional, a criança precisa de adulto de referência que escute, veja, converse, nomeie emoções e construa segurança. Limites firmes e coerentes, visto que sem limites não se forma consciência moral”, pontua a psicóloga, que completa:

“Educação emocional e empatia praticada, ou seja, ensinar autorregulação, tolerância à frustração e responsabilidade pelos próprios atos. E ainda, supervisão do mundo digital e das companhias: não é invasão, é cuidado. A internet acelera a dessensibilização e pode amplificar comportamentos de risco. E intervenção rápida diante de sinais, quanto mais cedo, melhor”, conclui.

Entenda o caso

Orelha era um cão comunitário que vivia há cerca de 10 anos na região da Praia Brava, em Santa Catarina, cuidado por moradores e comerciantes locais. Em 15 de janeiro, o animal foi encontrado gravemente ferido após sofrer agressões. Ele chegou a ser socorrido e levado para atendimento veterinário, mas, devido à gravidade dos ferimentos, não resistiu e foi submetido à eutanásia. O caso gerou forte comoção, mobilização popular e protestos em defesa da punição dos responsáveis.

A Polícia Civil identificou adolescentes como suspeitos de envolvimento no crime e o caso segue sob investigação, com acompanhamento do Ministério Público. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos e materiais estão sendo analisados para esclarecer as circunstâncias e possíveis participações adicionais. A apuração ocorre conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente, enquanto o episódio também impulsionou debates e propostas legislativas para endurecer punições contra maus-tratos a animais.

No avanço das investigações, os pais de adolescentes investigados foram indiciados por crimes como coação no curso do processo e tentativa de intimidação de testemunhas, segundo a Polícia Civil. Além disso, as autoridades apuram informações de que alguns dos adolescentes teriam viajado para os Estados Unidos, especificamente para a região da Flórida, após a repercussão do caso, o que passou a integrar a linha de investigação sobre eventual tentativa de dificultar o andamento das apurações

Por Cristiano Stefenoni– site Comunhão

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