Em caso de urgência, quem você chama?
Jesus redefine a fé como relação de amizade, convidando seus discípulos a uma espiritualidade construída em proximidade, confiança e partilha de vida - Foto: Freepik
A Bíblia apresenta a amizade como parte estrutural da experiência cristã, sendo que o próprio Cristo viveu essa necessidade de relacionamento
Celebrado em 14 de fevereiro em diversos países da América Latina e da Europa, como México, Guatemala, Venezuela e República Dominicana, além do Brasil, o Dia da Amizade nasceu das mesmas raízes do Valentine’s Day, mas foi sendo ressignificado ao longo do tempo como uma data dedicada não apenas ao amor romântico, e sim aos vínculos afetivos em sentido mais amplo. A proposta de separar um dia para celebrar a amizade ganhou projeção internacional no século XX, especialmente após a iniciativa do médico paraguaio Ramón Artemio Bracho, que em 1958 lançou a Cruzada Mundial da Amizade, defendendo que laços humanos são instrumentos de paz.
No cristianismo, porém, essa lógica antecede qualquer calendário. Nos Evangelhos, Jesus constrói sua missão cercado de amigos, partilhando refeições, confidências, medo e esperança, e oferece essa experiência como espelho para seus discípulos, ensinando que a fé não se sustenta no isolamento, mas em vínculos reais, capazes de revelar Deus na vida cotidiana.
O amigo que dá a vida
“Quem você chama em caso de urgência?”. A pergunta feita pelo pastor Leandro Peixoto não é apenas retórica. Para ele, a resposta expõe a forma como cada pessoa constrói seus vínculos mais profundos. “A vida cristã é praticamente impossível de ser vivida sem amigos espirituais”, afirma, ao defender que a amizade ocupa um lugar central na experiência da fé. Afinal, a Bíblia afirma em Eclesiastes 6.14 que “Quem encontrou um amigo encontrou um tesouro, e quem encontrou um tesouro encontrou algo de valor inestimável”.
A mesma perspectiva aparece na fala do reverendo Fábio Caetano ao comentar o ensino de Jesus em João 15. “Já não vos chamo servos, mas amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai eu vos dei a conhecer”, cita, ao destacar que, na Bíblia, a amizade nasce da revelação e da intimidade com Deus. Para ele, a diferença entre servo e amigo está no nível de acesso: “O servo apenas cumpre, o amigo conhece os segredos do Pai”.
A partir dessa lógica, a amizade deixa de ser apenas uma experiência espiritual individual e passa a funcionar como modelo de relação entre pessoas. “Um amigo fiel é um tesouro inestimável; seu valor não tem preço”, diz Eclesiastes 6.15. Se a fé se estrutura em acesso, intimidade e permanência, a vida cristã se expressa em vínculos concretos, em amigos que percebem silêncios, que fazem perguntas difíceis, que permanecem quando a vontade é desaparecer. É ou não é um tesouro?
Amizade que transforma
Para Fábio, o que torna Jesus singular como amigo é o fato de ele ter levado essa relação até o extremo. “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos”, afirma. “Jesus não ama em palavras, ama com entrega. Ele se doou voluntariamente para salvar os seus amigos”.
Leandro observa que o próprio Cristo viveu essa necessidade relacional. “Há orações que a gente não consegue fazer sem amigos do lado”, afirma, ao lembrar que Jesus chamou discípulos para estar com ele no Getsêmani. O episódio revela que até a espiritualidade precisa de testemunhas, gente que não resolve, mas fica; que não explica, mas sustenta; que não salva, mas impede o colapso.
Jesus chama amigos e fala em obediência porque sua amizade não é assimétrica, ele entrega a própria vida antes de pedir qualquer coisa. Entre cristãos, a amizade só se sustenta onde não há hierarquia, controle ou dívida. Amigos não obedecem, escolhem. E é justamente essa liberdade que torna a permanência um gesto raro e precioso.
Por Patrícia Esteves-Comunhão

