Carnaval, política e reação social: desfile da Acadêmicos de Niterói gera ações no TSE e amplia desgaste do governo
Escola é acusada de propaganda política antecipada e de ofensa a valores religiosos; repercussão jurídica e simbólica ultrapassa a avenida
O desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, transformou-se em um dos episódios mais controversos do carnaval deste ano ao unir estética carnavalesca, exaltação política e críticas a valores religiosos. A apresentação, inspirada na trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, provocou forte reação institucional, mobilizou partidos políticos e gerou intenso debate público sobre os limites entre arte, propaganda e respeito religioso.
Ao longo do desfile, telões exibiram passagens da vida política do presidente, referências a programas sociais, símbolos associados ao Partido dos Trabalhadores e gestos amplamente utilizados em campanhas eleitorais. Segundo representações protocoladas na Justiça Eleitoral, o conteúdo extrapolou o caráter cultural e assumiu contornos de promoção política em ano pré-eleitoral, o que pode configurar propaganda antecipada.
Diante da repercussão, o Partido Missão ingressou com representação no Tribunal Superior Eleitoral, pedindo liminar contra Lula, o PT e a escola de samba. O partido sustenta que o desfile reuniu “elementos eleitorais suficientes para descaracterizar a homenagem cultural e transformá-la em campanha eleitoral explícita”. O caso foi distribuído à ministra auxiliar da propaganda eleitoral, Estela Aranha.
Na sequência, o Partido Liberal protocolou pedido de produção antecipada de provas para apurar possíveis indícios de abuso de poder político e econômico. A legenda afirma que busca reunir elementos para eventual Ação de Investigação Judicial Eleitoral após o registro oficial das candidaturas, incluindo informações sobre possível uso de estrutura pública, captação de recursos e articulação de apoios políticos.
Além do campo jurídico, o desfile ganhou contornos ainda mais sensíveis ao retratar, em uma de suas alas, a família tradicional e grupos evangélicos como valores “em conserva”, associados a ideias ultrapassadas. A alegoria viralizou nas redes sociais e foi interpretada por líderes religiosos e parlamentares como ofensiva e discriminatória. Em poucas horas, a imagem foi ressignificada por internautas, que passaram a publicar fotos de famílias “enlatadas” em defesa da fé, da família e da religiosidade cotidiana.
Para analistas políticos, o episódio tocou em um ponto delicado do eleitorado que garantiu a vitória de Lula nas últimas eleições: eleitores de centro e moderados, que rejeitaram o radicalismo, mas não se identificam com agendas culturais consideradas confrontacionais. A crítica à representação simbólica desses valores ampliou o desgaste político do desfile e reforçou a percepção de distanciamento entre governo e parte da sociedade.
A repercussão foi ampliada por episódios paralelos noticiados pela imprensa, como a suposta discussão envolvendo a primeira-dama Janja e Lurian, filha do presidente, em camarote da Sapucaí, segundo relatos publicados pela Folha de S.Paulo e pelo portal Metrópoles. Embora tratados como assunto secundário, os relatos reforçaram a narrativa de desgaste e descontrole em torno do evento.
No campo simbólico, o impacto também foi negativo para a escola de samba, que acabou rebaixada, e para o próprio governo, cuja tentativa de transformar o carnaval em celebração política resultou em constrangimento nacional e repercussão internacional. Aliados admitiram, nos bastidores, que o saldo político foi desfavorável.
Especialistas em cultura e política avaliam que o episódio reacendeu o debate sobre o papel histórico da arte como instrumento de crítica ao poder. Quando manifestações artísticas passam a ser percebidas como ferramentas de exaltação do governante de plantão, perdem parte de sua força contestatória e tendem a provocar reações adversas.
O caso reforça a discussão sobre os limites da liberdade artística em contextos sensíveis, especialmente em períodos pré-eleitorais. Em democracia, a arte é livre, mas, quando se confunde com propaganda institucional, o julgamento não se restringe aos jurados do carnaval ou aos tribunais eleitorais — passa, sobretudo, pelo crivo da sociedade.
Com base em análise publicada originalmente na Gazeta do Povo.
Por Madeleine Lacsko
23/02/2026, às 09h35.

