Brasil amplia comércio com Irã e entra no radar da ofensiva econômica de Trump
Aumento de 15% nas trocas comerciais entre Brasil e Irã no primeiro semestre de 2026 ocorre em meio à nova ofensiva de Donald Trump contra Teerã e à ameaça de novas medidas econômicas contra países que mantiverem relações com o regime iraniano.
O Brasil pode se tornar alvo de novas medidas econômicas dos Estados Unidos em razão do fortalecimento de suas relações comerciais com o Irã. A possibilidade ganhou força após o presidente americano, Donald Trump, anunciar nesta quarta-feira (19) um chamado “Dia D Econômico” contra o regime iraniano, com o objetivo de ampliar o isolamento de Teerã e pressionar o país a aceitar um acordo para encerrar o conflito iniciado em fevereiro de 2026.
Em publicação na rede Truth Social, Trump advertiu que países que permitirem que instituições financeiras, empresas, aeroportos ou órgãos governamentais ofereçam apoio ao Irã poderão sofrer “consequências econômicas tremendas”. O presidente americano citou mecanismos como comércio de petróleo, transferências financeiras, linhas de swap, casas de câmbio, registros de navios e empresas de fachada.
A declaração coloca o Brasil em uma posição de atenção, especialmente porque o país integra o Brics ao lado do Irã e ampliou as relações comerciais com Teerã justamente durante o período de agravamento das tensões internacionais.
Comércio entre Brasil e Irã cresce 15%
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que o comércio entre Brasil e Irã movimentou aproximadamente US$ 1,37 bilhão no primeiro semestre de 2026, alta de 15% em relação ao mesmo período de 2025.
Entre janeiro e junho de 2025, o Brasil exportou US$ 1,16 bilhão para o Irã e importou US$ 30,5 milhões. No mesmo período de 2026, as exportações brasileiras avançaram para US$ 1,34 bilhão, enquanto as importações recuaram levemente para US$ 29,5 milhões.
A relação comercial é fortemente favorável ao Brasil, que mantém expressivo superávit nas operações com o país persa.
Entre os principais produtos brasileiros exportados para o Irã estão soja, farelo de soja e milho. Do lado das importações, aparecem produtos como nozes, peças para espaçonaves, drones e equipamentos relacionados e medicamentos, segundo dados do Observatório de Complexidade Econômica (OEC).
Trump amplia pressão sobre países que negociam com Teerã
A nova ofensiva anunciada por Trump representa uma ampliação da estratégia de pressão econômica sobre o Irã. O governo americano pretende dificultar mecanismos utilizados por Teerã para manter suas relações financeiras e comerciais internacionais.
O presidente dos Estados Unidos também sinalizou que a pressão poderá alcançar países que continuarem oferecendo suporte econômico ao regime iraniano. Reportagens sobre o anúncio mencionam o Brasil entre os países que mantêm relações comerciais com Teerã e que podem ser afetados pela nova política americana.
O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, reagiu à declaração de Trump e classificou a iniciativa como uma forma de “terrorismo econômico”, argumentando que a medida representa uma ameaça à economia mundial.
Brasil já enfrenta novas tarifas americanas
A possibilidade de novas sanções ocorre em um momento de forte tensão comercial entre Brasília e Washington.
Em julho, os Estados Unidos estabeleceram uma sobretaxa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros e outra de 12,5% relacionada à investigação sobre trabalho forçado. De acordo com o MDIC, quando as duas medidas incidem simultaneamente, a sobretaxa pode chegar a 37,5% para determinados produtos.
O governo brasileiro contestou as medidas e, em 27 de julho, apresentou um pedido de consultas aos Estados Unidos no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). O Itamaraty considera as tarifas incompatíveis com obrigações assumidas pelos Estados Unidos no sistema multilateral de comércio.
Segundo o MDIC, as novas sobretaxas atingem cerca de 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos, considerando os dados comerciais de 2024. Aproximadamente 16,5% das exportações estão sujeitas às duas medidas e, portanto, podem enfrentar a sobretaxa acumulada de 37,5%.
Possibilidade de nova frente de pressão
O cenário acrescenta uma nova variável às relações entre Brasil e Estados Unidos. Além das tarifas já aplicadas, Washington avalia mecanismos para ampliar a pressão sobre países que mantenham negócios considerados estratégicos com governos adversários dos Estados Unidos.
O governo brasileiro, por sua vez, tem defendido a negociação diplomática para solucionar a questão tarifária. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou recentemente que o Brasil trata o conflito como uma questão comercial e busca uma solução negociada com os americanos.
O eventual impacto de uma nova rodada de medidas contra países que mantêm relações comerciais com o Irã dependerá, entretanto, de quais mecanismos forem efetivamente adotados pelo governo Trump e de como Washington definirá os países e operações sujeitos às novas restrições.
Enquanto isso, o crescimento do comércio brasileiro com o Irã coloca a relação bilateral no centro de uma disputa econômica internacional que envolve Estados Unidos, Irã e outros importantes parceiros comerciais de Teerã.
Fonte: Gazeta do Povo, com informações complementares do MDIC, Ministério das Relações Exteriores, Agência Brasil e outras fontes consultadas.

