Crise no varejo: Mesbla, Arapuã, Saraiva e outras grandes varejistas brasileiras que faliram

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Fachada de prédio do Mesbla em Campinas (SP). No auge, varejista teve mais de 180 lojas e 28 mil funcionários (Foto: Anderson Carlos Bueno dos Santos/Wikimedia Commons)

A Casas Bahia tenta renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas, depois de oito trimestres consecutivos de prejuízo

Os pedidos de recuperação judicial do grupo Casas Bahia e da Marabraz, ambos protocolados no último final de semana, inauguram mais um capítulo no histórico de crises que de tempos em tempos assombram gigantes do setor do varejo brasileiro.

A Casas Bahia tenta renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas, depois de oito trimestres consecutivos de prejuízo, mesmo após ter recorrido a uma recuperação extrajudicial em 2024. Na semana passada, a rede anunciou o fechamento de 298 lojas e a demissão de cerca de 3 mil funcionários.

No caso da Marabraz, são cerca de R$ 140 milhões em dívidas que a empresa precisa renegociar. Por meio da recuperação judicial, as empresas, duas grandes varejistas do país, esperam conseguir preservar as operações.

Com os pedidos, as empresas se juntam a um grupo em que estão também AmericanasGrupo Pão de AçúcarCasa & Vídeo e Tok&Stok, que entraram em recuperação judicial ou extrajudicial para evitar o fechamento nos últimos anos.

Outras marcas que chegaram a dominar o setor, em diferentes épocas, não tiveram o mesmo destino e acabaram desaparecendo, por irem à falência, encerrarem as operações por conta própria ou serem compradas por concorrentes. Relembre alguns casos:

Mappin

Comercial do Mappin para o Natal de 1990

Comercial do Mappin para o Natal de 1990 (Foto: Reprodução/YouTube/Propagandas Históricas)

Um dos principais representantes do varejo brasileiro de outrora, o Mappin foi criado em São Paulo no início do século 20 e logo se transformou em uma das principais lojas de departamentos do país. Ao longo das décadas, tornou-se referência para consumidores paulistanos e passou a vender praticamente de tudo, de roupas e móveis a eletrodomésticos e artigos para casa.

Nos anos 1990, entretanto, a companhia começou a enfrentar dificuldades. A concorrência de lojas especializadas e o crescimento dos shopping centers mudaram o ambiente em que as grandes lojas de departamentos haviam prosperado. Em 1995, o Mappin registrou prejuízo de quase R$ 20 milhões. No ano seguinte, foi vendido ao empresário Ricardo Mansur, que também controlava a Mesbla.

Mas a tentativa de recuperação da empresa fracassou. O Mappin encerrou as atividades em 29 de julho de 1999, com uma dívida estimada em R$ 1,2 bilhão e mais de 300 pedidos de falência, que acabou decretada no mesmo ano.

Mesbla

Fachada de prédio do Mesbla em Campinas (SP)

Fachada de prédio do Mesbla em Campinas (SP) (Foto: Anderson Carlos Bueno dos Santos/Wikimedia Commons)

A Mesbla começou suas atividades no Rio de Janeiro em 1912 e chegou a ser uma das maiores redes de lojas de departamentos do Brasil. No auge, chegou a 180 lojas e mais de 28 mil funcionários. O conceito era o de um verdadeiro “shopping” dentro de uma única empresa: roupas, móveis, eletrodomésticos, artigos para casa e uma enorme variedade de outros produtos.

O problema foi que o modelo começou a perder competitividade justamente quando o varejo brasileiro passava por uma transformação profunda.

A hiperinflação dos anos 1980 levou a empresa a aumentar estoques para se proteger da alta de preços. Com a estabilização proporcionada pelo Plano Real, essa estratégia se tornou um peso. Ao mesmo tempo, lojas especializadas, shopping centers e novos concorrentes pressionavam a antiga estrutura das grandes lojas de departamentos.

A Mesbla entrou em concordata preventiva em 1995. Ricardo Mansur assumiu o controle em 1997, mas não conseguiu reverter a crise. A falência foi decretada em 1999, mesmo ano em que o Mappin também desapareceu.

Arapuã

Anúncio das Lojas Arapuã em edição da Gazeta do Povo de 20 de março de 1990

Anúncio das Lojas Arapuã em edição da Gazeta do Povo de 20 de março de 1990 (Foto: Reprodução/Memória Paraná)

A Arapuã tem uma história particularmente próxima da Casas Bahia, que cresceu a partir do crediário. Fundada em Lins, no interior de São Paulo, em 1957, a empresa cresceu vendendo principalmente eletrodomésticos e eletrônicos.

Na década de 1990, tornou-se uma das principais varejistas do país e rival direta da Casas Bahia e do Ponto Frio. No auge, tinha mais de 220 lojas, 2 mil funcionários e faturamento de cerca de R$ 1,6 bilhão.

O modelo, entretanto, dependia fortemente das vendas a prazo. O aumento da inadimplência e dos juros deteriorou as finanças da companhia. Em 1998, a Arapuã pediu concordata com dívidas que chegavam a aproximadamente R$ 1 bilhão.

A empresa tentou sobreviver fechando lojas, demitindo funcionários e diversificando produtos, mas não conseguiu cumprir o acordo com os credores. A falência foi decretada inicialmente em 2003, após uma longa disputa judicial. O processo chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e prolongou a sobrevida da marca até que a falência fosse novamente confirmada em 2020.

Casas da Banha

Comercial da Casas da Banha veiculado nos anos 1980

Comercial da Casas da Banha veiculado nos anos 1980 (Foto: Reprodução/YouTube/Propagandas Históricas)

O fenômeno de quebras de gigantes também atingiu o varejo de alimentos. Fundada no Rio de Janeiro em 1955, a Casas da Banha chegou a ser a segunda maior rede de supermercados do Brasil. Em 1985, seu auge, tinha 224 lojas, mais de 20 mil funcionários e faturamento anual de US$ 700 milhões.

A rede ficou conhecida nacionalmente, em parte por patrocinar o programa do Chacrinha, sucesso de audiência nos anos 1980. Também foi responsável por um dos primeiros grandes hipermercados brasileiros.

A queda começou com os planos econômicos dos anos 1980. O congelamento de preços do Plano Cruzado atingiu em cheio a empresa, que trabalhava com margens apertadas. Na sequência, o confisco de depósitos e poupanças do Plano Collor agravou a crise de liquidez. A rede passou a vender lojas e ativos para pagar dívidas e encolheu rapidamente.

Em 1992, pelo menos 149 lojas já haviam sido vendidas ou devolvidas aos proprietários para o pagamento de dívidas. A falência foi decretada em 1999, a pedido da própria empresa.

Saraiva

Antiga unidade da livraria Saraiva em Brasília

Antiga unidade da livraria Saraiva em Brasília (Foto: Luan David/Wikimedia Commons)

Fundada em 1914, a Saraiva chegou a se tornar a maior rede de livrarias do país, com mais de 100 lojas. Com a aquisição da Siciliano, em 2008, dominava 20% do mercado editorial brasileiro.

A retração do setor, a transformação do mercado editorial – principalmente a migração das vendas para o comércio eletrônico – e o consequente endividamento levaram a companhia a pedir recuperação judicial em 2018, com um passivo de cerca de R$ 675 milhões.

Em 2023, a Saraiva fechou suas cinco últimas lojas físicas e, no mesmo ano a Justiça decretou sua falência.

Ricardo Eletro

Antiga unidade Ricardo Eletro em Coronel Fabriciano (MG)

Antiga unidade Ricardo Eletro em Coronel Fabriciano (MG) (Foto: HVL/Wikimedia Commons)

Fundada em 1989, em Divinópolis (MG), por Ricardo Nunes, a Ricardo Eletro foi uma das grandes histórias de expansão do varejo brasileiro nos anos 2000. A rede cresceu por meio da abertura de lojas e de aquisições e, em 2010, uniu-se à baiana Insinuante para formar o grupo Máquina de Vendas

No auge, o conglomerado chegou a ter cerca de 1,2 mil lojas e 28 mil funcionários, tornando-se uma das maiores varejistas do país.

O crescimento, porém, veio acompanhado de forte endividamento. A Máquina de Vendas já enfrentava dificuldades financeiras antes da pandemia e havia recorrido a uma recuperação extrajudicial em 2019.

A crise sanitária agravou a situação: com o fechamento das lojas físicas, a empresa chegou a perder mais de 90% do faturamento. Em agosto de 2020, a holding pediu recuperação judicial com dívidas de aproximadamente R$ 4 bilhões. A companhia fechou todas as suas cerca de 300 lojas físicas para concentrar a operação no comércio eletrônico.

Cerca de 3,5 mil funcionários foram demitidos. A Máquina de Vendas chegou a ter sua falência decretada em 2022, decisão que posteriormente foi suspensa pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Embora a empresa ainda mantenha sua operação digital, não há mais pontos de venda físicos com suas bandeiras.

Hermes Macedo

Antiga loja da Hermes Macedo em Paranaguá (PR). Imóvel foi a leilão em 2002

Antiga loja da Hermes Macedo em Paranaguá (PR). Imóvel foi a leilão em 2002 (Foto: Pedro Serápio/Gazeta do Povo/Arquivo)

Antes de redes nacionais como Casas Bahia, Ponto Frio e Magazine Luiza ocuparem o mercado de eletrodomésticos, grandes grupos dominavam mercados regionais.

No Paraná, uma das marcas que passaram pelo ciclo do auge à falência foi a Hermes Macedo, também conhecida pela sigla HM. Fundada em Curitiba em 1932 pelo empresário Hermes Farias de Macedo, a empresa começou vendendo peças usadas de caminhões. Aos poucos, diversificou suas atividades e transformou-se em uma enorme rede de lojas de departamentos.

Nos anos 1980, chegou a 285 lojas em seis estados, tornando-se uma das maiores empresas varejistas brasileiras. O slogan “Do Rio Grande ao Grande Rio” sintetizava sua presença no Sul e no Sudeste.

A crise veio nos anos 1990. O Plano Collor derrubou as vendas, enquanto problemas de sucessão e disputas familiares agravaram a situação. A concorrência de redes como Casas Bahia, C&A e Riachuelo também aumentou a pressão sobre o grupo.

A empresa entrou em concordata em 1992. Depois de tentativas de reestruturação, a falência foi decretada em 1997.

Disapel

Fachada de antiga loja da Disapel no Centro de Curitiba

Fachada de antiga loja da Disapel no Centro de Curitiba (Foto: Gazeta do Povo/Arquivo)

Outra marca que dominou o varejo de eletrodomésticos na região Sul foi a Disapel. A empresa paranaense chegou a ter 110 lojas espalhadas por Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e alcançou também o estado de São Paulo.

No fim dos anos 1990, porém, a situação financeira se deteriorou. A empresa entrou em crise e acabou reduzindo sua rede. Quando a falência foi decretada, em junho de 2000, ainda havia 81 unidades em operação. Na época, Casas Bahia e Ponto Frio adquiriram os pontos comerciais remanescentes da Disapel.

Imcosul

Comercial da Imcosul veiculado nos anos 1980

Comercial da Imcosul veiculado nos anos 1980 (Foto: Reprodução/YouTube/João Antônio Araujo)

No Rio Grande do Sul, uma das marcas mais lembradas das décadas passadas é a Imcosul. Fundada em 1935, a empresa começou como uma loja de comércio diversificado e cresceu até se tornar uma das grandes redes varejistas do Sul.

Seu símbolo era um hipopótamo, e a marca chegou a manter forte presença em campanhas publicitárias e ações promocionais. No auge, a Imcosul tinha 62 lojas e cerca de 3 mil funcionários em território gaúcho e em Santa Catarina.

A empresa não conseguiu acompanhar a transformação do varejo dos anos 1990 e acabou falindo. Seu desaparecimento também é representativo da transição de uma época em que o consumidor do Sul tinha diversas redes regionais à disposição, antes da consolidação de gigante do varejo nacional.

J.H. Santos

Antigo comercial da rede de lojas J.H. Santos

Antigo comercial da rede de lojas J.H. Santos (Foto: Reprodução/YouTube/Catharina Conte)

Outra tradicional rede gaúcha foi a J.H. Santos, que tinha 21 pontos de venda quando sua falência foi decretada, em 1997. No mesmo ano, o Ponto Frio arrematou todas as unidades em leilão por R$ 460 mil.

As lojas empregavam 239 pessoas, e uma das condições do leilão era que o comprador desse preferência à contratação desses funcionários, além de pagar R$ 280 mil em salários atrasados.

Lojas Paraíso

Com falência decretada em 1999, a Paraíso foi uma das principais redes varejistas do Nordeste

Com falência decretada em 1999, a Paraíso foi uma das principais redes varejistas do Nordeste (Foto: Reprodução/YouTube/Pessoa Neto)

De origem cearense, as Lojas Paraíso chegaram a ser uma das principais redes de móveis e eletrodomésticos do Nordeste. A empresa alcançou 57 lojas e 1.079 funcionários, com presença em quatro estados da região. Seu modelo de negócio tinha forte dependência do consumidor de renda mais baixa e das vendas a prazo.

Em 1998, a empresa pediu concordata após acumular uma dívida de R$ 67,3 milhões. Assim como ocorre com a Casas Bahia hoje, juros elevados, queda nas vendas e inadimplência estavam entre os fatores que pressionavam o caixa.

Em dezembro de 1999, quando restavam 19 lojas, a Justiça decretou sua falência, embora uma decisão posterior tenha suspendido temporariamente o fechamento de algumas unidades.

Outras gigantes regionais que ficaram pelo caminho

Nem todas as redes desapareceram com o mesmo grau de projeção nacional, mas algumas ajudam a dimensionar como a concentração do varejo atingiu diferentes mercados regionais.

Livraria Cultura

Fundada em São Paulo em 1947, a Livraria Cultura foi durante décadas uma das principais referências do mercado editorial brasileiro. A empresa cresceu para além da tradicional loja da Avenida Paulista e chegou a 18 unidades no país.

Em 2017, comprou a operação brasileira da francesa Fnac, justamente quando o mercado de livros passava enfrentava o avanço do comércio eletrônico e a mudança nos hábitos dos leitores. Em 2018, entrou em recuperação judicial, com dívidas de cerca de R$ 285 milhões. A Justiça chegou a decretar a falência da empresa em 2023, mas a decisão foi posteriormente suspensa pelo STJ, onde o processo ainda não teve um desfecho.

Lojas Brasileiras

Concorrentes históricas das Lojas Americanas, as Lojas Brasileiras, ou Lobras, encerraram as atividades em 1999. Tinham 63 unidades em 20 estados e cerca de 6 mil funcionários, mas acumulavam aproximadamente R$ 100 milhões em dívidas. Neste caso, não houve falência decretada pela Justiça.

O controlador da marca, a família Goldfarb, decidiu encerrar a operação para preservar a saúde financeira da Marisa, que também pertencia ao grupo. Parte das lojas foi convertida para a bandeira que atua principalmente no comércio de vestuário feminino.

Jumbo Eletro

Braço de eletrodomésticos do Grupo Pão de Açúcar, também pertence a essa geração de redes que desapareceram. O grupo substituiu progressivamente a marca pela bandeira Extra, em uma mudança de estratégia que acompanhou a transformação do varejo brasileiro.

Ultralar

Criada em 1956 como braço varejista do Grupo Ultra, surgiu principalmente com a intenção da empresa de popularizar o fogão, até então raro no país, e impulsionar as vendas de botijões de gás. Em 1965 chegou a patrocinar, na TV Globo, o telejornal “Ultra Notícias”, que seria sucedido, anos depois, pelo Jornal Nacional.

Chegou a manter 44 lojas em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Depois de ser vendida pelo grupo controlador, enfrentou dificuldades e encolheu para 17 unidades. A falência foi decretada em maio de 2000; a maior parte dos pontos acabou adquirida pela Casas Bahia.

Dudony

Do Paraná, a Dudony chegou a se tornar uma das principais redes regionais de móveis e eletrodomésticos, com 110 lojas no Paraná e em São Paulo. O crescimento, porém, veio acompanhado de forte endividamento, levando a companhia a entrar em recuperação judicial em 2008, com dívidas de aproximadamente R$ 105 milhões. O desaparecimento da empresa, no entanto, não se deu por falência: em 2009, os credores aprovaram a venda dos ativos da Dudony ao Grupo Silvio Santos, por cerca de R$ 33 milhões.

Célio YanoPor Célio Yano– Gazeta do povo 20-08-2026

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