Crise do Banco Master reacende mobilização popular e anima planos da oposição

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Faixas, camisetas e bandeiras do Brasil marcaram a Caminhada pela Liberdade, que mobilizou famílias, caravanas e apoiadores em Brasília (Foto: Aline Rechmann/Gazeta do Povo) 5 felizes Ícone de reação Feliz Ícone de reação Preocupado Ícone de reação Inspirado Ícone de reação Surpreso Ícone de reação Triste Ícone de reação Indignado Ouça este conteúdo A crise institucional provocada pela condução do caso Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF) passou a ser vista pela oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como um incentivo à volta de grandes protestos populares contra a corrupção e abusos judiciais no país. Um sinal desse cenário veio com os milhares de participantes da Caminhada pela Liberdade, iniciada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) segunda-feira (19), em Minas Gerais, e concluída no domingo (25) em Brasília. A iniciativa partiu das redes sociais e tomou as ruas. Na avaliação de parlamentares e analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o desgaste do STF com os conflitos de interesse de juízes e a postura defensiva da cúpula da Corte recriam o ambiente social que marcou as manifestações de rua anteriores ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Após mobilizar políticos e influenciadores conservadores para pautas da oposição, como mudar a situação prisional de condenados pelo 8 de janeiro e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a caminhada se transformou no movimento “Acorda, Brasil”, que pede o retorno do povo às ruas como instrumento de pressão política. Ao chegar à capital federal, Nikolas Ferreira afirmou que “o Brasil não tem medo” do ministro Alexandre de Moraes, do STF, e que a população, antes retraída por prisões em massa do 8 de janeiro, agora despertou em razão dos casos de corrupção relacionados ao Master. “Vamos acordar mais gente. Foi apenas o começo”, discursou. Para líderes do “Acorda, Brasil”, a reação de governistas e alertas de órgãos públicos sobre a marcha foram tentativas de desmobilização. Após o sexto dia de caminhada, Nikolas passou a usar colete à prova de balas, alegando ter recebido ameaças. Enquanto vestia o equipamento de proteção, pediu calma aos seguidores e destacou cuidados com infiltrados e dispersões ao longo do trajeto para evitar “armadilhas da esquerda”. O percurso de cerca de 240 quilômetros terminou com uma grande concentração em Brasília em defesa do lema “justiça e liberdade”. O evento foi marcado ainda pela queda de um raio que feriu participantes e a surpreendente presença de ao menos um influenciador de esquerda, por razão familiar. VEJA TAMBÉM: Lula sugere renúncia de Toffoli? Entenda a crise no STF e o caso Mantega STF OAB-SP propõe código de ética ao STF mais duro à atuação dos ministros Combinação de fatores pode escalar novos protestos A leitura da direita é de que o escândalo do Master, a resistência do STF em se autoconter e a indignação de parte da população em relação aos fatos recentes da política nacional criam o ambiente para protestos em grande escala. Antes da caminhada de Nikolas, o MBL, por exemplo, realizou na semana passada um ato em frente à sede do Master, em São Paulo. Por outro lado, em meio à tensão, o presidente do STF, Edson Fachin, divulgou nota na última quinta-feira (15) em que respaldou o ministro Dias Toffoli, relator do caso Master. Fachin salientou que a Corte “não se curva a ameaças”, discurso visto pela oposição como corporativismo judicial. Para o cientista político Paulo Kramer, reações como a de Fachin reforçam a percepção de “juristocracia” no Brasil - quando juízes e tribunais passam a exercer influência excessiva sobre decisões políticas que caberiam aos poderes eleitos - e ampliam a crise institucional. E quanto mais o STF se blinda, mais impulsiona o engajamento da direita e o alcance social dos protestos, criando quadro semelhante ao visto em 2015 e 2016. Kramer avalia ainda que o contexto externo, com protagonismo dos Estados Unidos, tende a reduzir as ações de censura no Brasil e contra a livre expressão. Para ele, dificilmente se repetirá o nível de restrição à direita nas eleições de 2022, sob a presidência de Moraes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Judiciário resiste às pressões de políticos e das ruas e amplia tensão A investigação do Master ainda nas mãos de Toffoli também segue gerando efeitos políticos. O arquivamento de pedidos de suspeição do ministro pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e a defesa pública do colega feita pelo decano do STF, Gilmar Mendes, foram lidos como sinais de fechamento institucional. Parlamentares da oposição articulam novas representações com elementos adicionais, que incluem viagens, negócios imobiliários e relações societárias não analisadas nos despachos anteriores. O objetivo é manter o tema em evidência e sustentar que há esforço de autoproteção no topo do Judiciário. A evolução dos protestos de rua explica o momento atual. Após as mobilizações pelo impeachment de Dilma, as do período Bolsonaro foram tachadas pelo STF como instrumento do Executivo para conter sua atuação. O 8 de janeiro de 2023 consagrou essa narrativa de “ataque à democracia”. Desde então, a direita manteve capacidade restrita de mobilização em locais simbólicos, como a Avenida Paulista e a Praia de Copacabana, retomadas em 2024, mas com público menor e discurso cauteloso. A crise do Master surge como gatilho para romper limites ao protesto de indignação generalizada. Afastamento de ministros do STF segue improvável Para o professor de ciências políticas Antônio Flávio Testa, a Caminhada pela Liberdade foi decisiva para cobrar reação do Congresso, mas consequências como o afastamento de ministros do STF seguem improváveis. O inusitado, acredita, só poderia vir de uma postura independente da Polícia Federal (PF). Na avaliação da oposição, a combinação entre escândalo financeiro, desgaste do STF e reativação das ruas pode inaugurar nova fase de pressão popular, que pode produzir resultados mediante negociações de bastidores entre líderes da direita e as instituições. O Master funciona como símbolo de uma crise institucional mais profunda. Com isso, uma das prioridades da oposição na retomada dos trabalhos legislativos em fevereiro será a instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Banco Master, logo na primeira sessão conjunta do Congresso, além de novas investidas no caso a partir das CPMIs do INSS e do Crime Organizado. Até mesmo Lula mostrou incômodo com a exposição do ministro Toffoli no caso Master, de acordo com reportagem da Folha de S. Paulo, já que o desgaste no STF acaba respingando no governo. Segundo o jornal, auxiliares do presidente veem risco político crescente.

Desgaste do STF e denúncias envolvendo a Corte criam ambiente semelhante ao pré-impeachment e estimulam retomada de protestos de rua contra corrupção e abusos institucionais

Faixas, camisetas verde-amarelas e bandeiras do Brasil voltaram a ocupar o espaço público em um movimento que a oposição avalia como um ponto de inflexão no cenário político nacional. A crise institucional desencadeada pelo tratamento dado ao caso Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF) passou a ser interpretada como um catalisador para a retomada de grandes manifestações populares, interrompidas desde os episódios de 8 de janeiro de 2023.

O sinal mais visível dessa mudança foi a Caminhada pela Liberdade, mobilização iniciada em Minas Gerais pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e encerrada em Brasília após cerca de 255 quilômetros percorridos. Organizada a partir das redes sociais, a iniciativa reuniu famílias, caravanas e apoiadores da direita em defesa do lema “justiça e liberdade”, consolidando-se como embrião de um movimento mais amplo, batizado de “Acorda, Brasil”.

Para parlamentares e analistas políticos ouvidos pela Gazeta do Povo, o desconforto crescente em torno do STF — especialmente diante de acusações de conflitos de interesse e da postura considerada corporativa da Corte — recria o ambiente social observado nas manifestações que antecederam o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). A avaliação é de que a reação defensiva do Judiciário amplia a percepção de distanciamento entre instituições e sociedade.

Ao chegar à capital federal, Nikolas Ferreira adotou um tom de enfrentamento direto. Em discurso, afirmou que a população “não tem medo” do ministro Alexandre de Moraes e que o receio instaurado após as prisões relacionadas ao 8 de janeiro estaria dando lugar à indignação diante das denúncias envolvendo o Banco Master. “Foi apenas o começo”, disse o deputado, prometendo ampliar o alcance do movimento.

Durante o trajeto, Nikolas passou a usar colete à prova de balas, alegando ter recebido ameaças. Em vídeos direcionados aos seguidores, pediu cautela, alertou sobre possíveis infiltrações e acusou setores da esquerda de tentativas de desmobilização. Líderes do “Acorda, Brasil” também interpretaram comunicados de órgãos públicos e críticas de governistas como esforços para esvaziar a marcha.

Escândalo financeiro e tensão institucional

A leitura predominante na oposição é que a combinação entre o escândalo do Master, a resistência do STF a adotar mecanismos de autocontenção e a insatisfação difusa com os rumos da política nacional cria um terreno fértil para protestos de maior escala. Antes mesmo da caminhada, o Movimento Brasil Livre (MBL) já havia promovido um ato em frente à sede do banco, em São Paulo.

Do outro lado, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, divulgou nota em defesa do relator do caso, Dias Toffoli, afirmando que a Corte “não se curva a ameaças”. A manifestação foi recebida pela oposição como mais um indício de fechamento institucional. O cientista político Paulo Kramer avalia que reações desse tipo reforçam a percepção de uma “juristocracia”, em que tribunais passam a exercer influência excessiva sobre decisões políticas, aprofundando a crise entre poderes.

Segundo Kramer, quanto maior o isolamento do STF, maior tende a ser o engajamento da direita e o alcance social das mobilizações — dinâmica semelhante à observada em 2015 e 2016. Ele acrescenta que o contexto internacional, especialmente a atuação dos Estados Unidos em defesa da liberdade de expressão, pode reduzir margens para ações de censura no Brasil, tornando improvável a repetição do nível de restrições vistas nas eleições de 2022.

Congresso no radar e limites institucionais

O avanço das investigações do Banco Master sob relatoria de Toffoli continua a produzir efeitos políticos. O arquivamento de pedidos de suspeição pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e a defesa pública feita pelo decano Gilmar Mendes foram interpretados como sinais de autoproteção institucional. Em resposta, parlamentares da oposição preparam novas representações, incluindo questionamentos sobre viagens, negócios imobiliários e relações societárias ainda não analisadas.

Para o professor de ciência política Antônio Flávio Testa, a Caminhada pela Liberdade cumpriu papel relevante ao pressionar o Congresso, mas medidas mais drásticas, como o afastamento de ministros do STF, seguem improváveis. Na sua avaliação, mudanças inesperadas dependeriam de uma atuação verdadeiramente independente da Polícia Federal.

Mesmo assim, a oposição aposta que a reativação das ruas, somada ao desgaste do Judiciário, pode inaugurar uma nova fase de pressão política. Entre as prioridades está a instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Banco Master logo no início dos trabalhos legislativos, além de ações articuladas com outras CPMIs, como as do INSS e do Crime Organizado.

O desgaste não passa despercebido pelo Planalto. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou incômodo com a exposição do ministro Toffoli, já que o abalo na imagem do STF tende a respingar no governo. Auxiliares presidenciais avaliam que o risco político é crescente.

Para a oposição, o caso Master deixou de ser apenas um escândalo financeiro e passou a simbolizar uma crise institucional mais profunda — capaz, desta vez, de levar novamente o povo às ruas.

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