O silêncio da violência contra mulher nos lares evangélicos

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Pesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie indica que cerca de 40% das mulheres atendidas por organizações de apoio à vítima se identificam como evangélicas. Foto: Reprodução

Pesquisas revelam agressões dentro de famílias cristãs e mostram por que muitas mulheres não denunciam, especialmente quando o agressor é líder religioso

Na semana em que o mundo volta os olhos para o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, um tema sensível emerge dentro de comunidades religiosas: a violência contra mulheres em lares evangélicos. Embora igrejas sejam frequentemente associadas a valores como amor, cuidado e proteção familiar, pesquisas mostram que a realidade pode ser mais complexa e, muitas vezes, silenciosa.

Histórias como a da bancária Maria (nome fictício), da cidade de Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo, revelam a dimensão humana do problema. Ela conheceu o marido ainda adolescente em uma igreja evangélica e viveu durante anos um relacionamento marcado por agressões. Ao buscar ajuda no templo que frequentava, ouviu que deveria orar mais e permanecer no casamento. A situação só mudou depois de uma internação hospitalar, quando decidiu romper a relação após mais de uma década de violência.

Levantamento do DataSenado e do Observatório da Mulher contra a Violência, ligado ao Senado Federal, revelou um dado que chama atenção: 69% das mulheres evangélicas que sofrem violência doméstica procuram primeiro ajuda dentro da igreja, antes de recorrer a órgãos públicos. O mesmo estudo aponta que instituições religiosas são buscadas por mais da metade das vítimas brasileiras, o que reforça o peso das comunidades de fé como espaço de acolhimento, mas também de tensão.

Outro dado frequentemente citado em debates sobre o tema vem de estudos analisados por pesquisadores da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que indicam que cerca de 40% das mulheres atendidas por organizações de apoio à vítima se identificam como evangélicas. Especialistas destacam que esse número não significa que a religião seja causa direta da violência, mas aponta para um fenômeno que precisa ser discutido com seriedade dentro das próprias comunidades religiosas.

A psicóloga Martha Zouain, especialista em neuroaprendizagem e comportamento humano, afirma que a contradição entre fé e violência é uma das questões mais dolorosas relatadas por mulheres que chegam ao consultório. “Em mais de 26 anos trabalhando com pessoas, já ouvi essa história muitas vezes. Mulheres que chegam até mim carregando uma ferida dupla: a da agressão e a da confusão de não entender como aquilo é possível dentro de uma casa onde se ora, se lê a Bíblia, onde o marido lidera uma célula”, relata.

Segundo ela, a explicação passa também por fatores emocionais e psicológicos que antecedem a própria experiência religiosa. “A fé move montanhas, mas não reorganiza sozinha circuitos emocionais que foram formados ao longo de anos. Raiva mal regulada, necessidade de controle, incapacidade de lidar com a frustração: esses padrões nascem na infância, se consolidam no sistema nervoso e não desaparecem com uma oração, por mais sincera que ela seja”, explica.

O silêncio que protege reputações

Entre os fatores que dificultam a denúncia está a posição social que alguns agressores ocupam dentro das igrejas. Em muitos casos, o agressor é líder religioso, pastor ou responsável por ministérios, o que cria um dilema doloroso para as vítimas. “Quando ouço isso, sinto um aperto no peito. Porque essa mulher está sozinha num dos momentos mais difíceis da vida e ainda carrega nas costas o peso da imagem do marido, da família, da congregação”, afirma Zouain.

Ela aponta que muitas mulheres acabam sendo pressionadas a proteger a reputação do agressor. “Ela foi ensinada, de forma sutil e cruel, que a reputação dele vale mais do que a dor dela. Isso é uma inversão de valores que precisa ser desfeita com firmeza”, diz. Para a especialista, a própria ideia de reputação precisa ser revista dentro das comunidades religiosas.

“A verdadeira reputação de um líder não se constrói no palco, diante da congregação. Ela se revela no quarto, na cozinha, na forma como ele trata quem não pode cobrar nada dele. Um homem que agride em casa e lidera na frente não tem reputação a proteger, tem uma mentira a sustentar”, pontua.

A pastora Aline Santos, da Igreja Batista Atitude, na Barra da Tijuca, reconhece que a situação se torna especialmente delicada quando envolve líderes religiosos. “É realmente muito delicado a gente falar sobre isso, porque esse homem ocupa um lugar de destaque dentro da igreja, por ser um líder. Se alguém fala de uma agressão, de algo que fere os princípios da palavra, vai ser um escândalo”, afirma.

Por Cristiano Stefenoni – Cumunhão

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