“E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” (João 8:32)

Quando iniciou sua companha eleitoral rumo à presidência da república, o então candidato Jair Bolsonaro começou a fazer uso do citado versículo bíblico em suas falas.

A vitória nas urnas veio e agora Presidente, ele está dando continuidade ao uso dessa passagem bíblica em suas live, entrevistas e também por ocasião de pronunciamentos do governo, em rede nacional.

Apesar de citar muitas vezes esse texto da Bíblia, Bolsonaro nunca expôs o real significado da palavra verdade e do que ela liberta e, citando-o de forma isolada efora do contexto narrado por Jesus no livro de João, esse texto tornou-se um pretexto para interpretação, pelo Presidente, diverso da sua finalidade.

Quando candidato, Bolsonaro associou as palavras verdade e libertará, descritas no versículo, para mostrar para os eleitores sua intenção de, sendo eleito, revelar verdades dos desmandos dos governos e da classe política brasileira no tocante ao mau uso da máquina pública que servia para sustentar a corrupção no Brasil. Dessa forma, ele se apresentava como um agente de mudança que a população desejava para revelar essa face “obscura” da política. O povo estava cansado de promessas e mentiras e a “nova política”, prometida por Bolsonaro, iria trazer à tona as inverdades dos governantes e os conchavos políticos da banda “podre” que administrava esse gigante país adormecido, libertando-o de seus algozes que saqueavam os cofres públicos para se enriquecerem, enquanto o povo pobre cada vez ficava mais pobre.

Também nosso país passava por graves ameaças à instituição familiar e desagregação dos valores éticos e morais e, utilizando uma passagem bíblica, em um país onde 86,8% da população é cristã (incluindo católicos e evangélicos), segundo dados do Censo de 2010 divulgado pelo IBGE, Bolsonaro despertou a atenção desse segmento social e conseguiu grande apoio dos seguidores cristãos, principalmente de expoentes líderes evangélicos.

Mas qual o sentido real das palavras verdade e libertará, descritos nessa narrativa de Jesus? Bom, para entendermos bem qual é o sentido, é necessário lermos o capítulo 8 do evangelho de João, a partir do versículo 20. Nessa leitura vamos entender o contexto, em que Jesus Cristo está defendendo a sua missão e autoridade perante os judeus já que eles não criam Nele e no motivo pelo qual Ele veio ao mundo. No versículo 20 é relatado que Jesus ensinava no templo e ali ele falava a respeito do plano de salvação feito pelo Pai para o seu povo – os judeus.  Diante da explanação de Jesus muitos judeus creram Nele como salvador, fato que pode ser confirmado na narrativa descrita no versículo 31. A estes Jesus dirige a palavra dizendo que se eles permanecessem na presença Dele, eles verdadeiramente seriam seus discípulos e no versículo seguinte Jesus acrescentou a expressão “e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”  

Nesse mesmo livro de João, no capítulo 17, em sua oração sacerdotal ao Pai, Jesus esclarece o verdadeiro significado da verdade dita por ele no capítulo 8, no versículo 32, quando Ele pede ao Pai “Santifica-os na verdade: a tua palavra é a verdade.” Ainda no livro de João, no capítulo 14, versículo 6, Jesus responde a pergunta de Tomé dizendo “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao pai senão por mim.

É público e notório que a Bíblia sagrada é a inerrante e infalível palavra de Deus para toda a humanidade. Então conhecendo essa palavra, vamos conhecer a verdade sobre a criação do homem, sua queda e, principalmente, o plano de salvação estabelecido por Deus para que pudéssemos ter a vida eterna junto a Ele, que é o propósito para o qual criou homens e mulheres.

Desta forma, conhecer a verdade que liberta, descrita em João 8:32 trata-se de conhecer a Jesus, permanecer na sua presença e fazer a sua vontade porque, conforme registrado no pentateuco em Números, capítulo 23 e versículo 19, “Deus não é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa.”

Ainda no pentateuco, agora no livro de Deuteronômio, o Senhor recomenda ao povo “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos.” (Dt 6:6-8). Esses versículos fazem parte do texto mais conhecido pelos judeus, afinal, eles deviam memorizá-lo e recitá-lo todos os dias. Começando no versículo 4: “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”, o texto é chamado de Shemá, palavra hebraica para “Ouve”. Mas ainda há mais pérolas para descobrir no original que elucidará o tema aqui em análise. É comum no idioma tratado as palavras terem mais de um significado. Assim sendo, Shemá também é “obedecer” (Is. 1:19; Jr. 12:17 etc). Em outras palavras, a verdade somente libertará se não somente for “ouvida”, mas também “obedecida”. A Toráh já ensinava a perfeita união que deve haver entre “fé” e “obras”.

Sobre conhecer a verdade (a palavra de Deus) encontramos no livro de Josué, no capítulo I, versículo 8 a seguinte recomendação do Pai “Não cesses de falar deste livro da lei (a palavra de Deus); antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo a tudo quanto nele está escrito (…).”  Essa recomendação é reforçada no capítulo primeiro, versículo 2 do livro dos Salmos “Antes o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.”

Sobre a palavra de Deus que é a verdade que liberta deparamos ainda no Salmo 119, no versículo 105 que “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus caminhos.”; no versículo 130 que “A revelação das tuas palavras esclarece, e dá entendimento aos simples.”; no versículo 133 “Firma os meus passo na tua palavra; e não me domine iniquidade alguma.”

À luz da Bíblia, conhecer a verdade para se libertar, não se trata de fatos terrenos, é algo no plano espiritual, é aceitar a Jesus Cristo como Salvador porque “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” (Jo 8:36). Aceitar a Jesus significa aceitar seus valores, seus princípios, acolher a sua vontade e os seus caminhos como melhores do que os nossos, a sua proposta de vida como sendo superior à nossa.

Nos últimos tempos, notadamente depois do Iluminismo o homem tem procurado construir um mundo humano, sem Deus; centrado na razão, e não na fé. Portanto presidente, conhecer a verdade que liberta narrado em João 8:32 não se trata de verdades humanas é conhecer a palavra de Deus que é poderosa para libertar pessoas da mentira, da corrupção, dos desmandos etc, porque “E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: as cousas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (I Co 5:17)

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