Do destino de compras ao país onde brasileiros querem recomeçar

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Movimento migratório transforma a relação entre brasileiros e Paraguai, tradicionalmente marcada pelo comércio na fronteira

Por décadas, atravessar a Ponte da Amizade, entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e Ciudad del Este, no Paraguai, foi sinônimo de compras. Aos fins de semana, milhares de brasileiros cruzavam a fronteira em busca de eletrônicos, perfumes, bebidas e outros produtos vendidos a preços mais baixos.

Nos últimos anos, porém, uma parte desse fluxo passou a ter outro destino.

Brasileiros que antes atravessavam a fronteira como consumidores estão passando a fazê-lo como moradores. O Paraguai vem registrando aumento no número de estrangeiros que solicitam residência, e os brasileiros lideram esse movimento.

Segundo a Direção Nacional de Migrações do Paraguai, 47.687 pedidos de residência foram registrados em 2025, alta de 63% em relação ao ano anterior. Ao longo do ano, 40.600 residências foram concedidas. Entre os beneficiados, 23.526 eram brasileiros — 58% do total.

A tendência ganhou força em 2026. Apenas nos primeiros seis meses do ano, o governo paraguaio recebeu 33.243 pedidos de residência, número 62% superior ao registrado no mesmo período de 2025. Foram concedidas 29.765 residências no semestre, das quais 22.628 para brasileiros.

A fronteira que mudou de função

Em Ciudad del Este, o movimento pode ser percebido nos serviços de imigração. Em março de 2025, um atendimento itinerante realizado pela Direção Nacional de Migrações recebeu 1.065 pedidos de residência de estrangeiros. A maioria dos solicitantes era formada por pessoas vindas do Brasil.

A procura não se limita à região da fronteira. O governo paraguaio passou a reforçar a estrutura de atendimento diante do aumento da demanda. Em julho de 2026, a Direção Nacional de Migrações anunciou um plano de contingência para ampliar a capacidade de análise e processamento dos pedidos.

Os motivos apresentados por quem decide se mudar são variados. Entre eles aparecem questões relacionadas a custo de vida, tributação, trabalho e oportunidades para empreender.

O movimento também alcança empresas. Reportagem da CNN Brasil aponta que incentivos fiscais e custos operacionais menores têm atraído empresários brasileiros para o Paraguai. Levantamento publicado pela Forbes Brasil em junho de 2026 apontou que mais de 200 empresas brasileiras já haviam se instalado no país.

Da compra à residência

A mudança de perfil não significa que o comércio de fronteira tenha perdido importância. Pelo contrário: o fluxo de entrada e saída continua elevado. Em 2025, o Paraguai registrou 14,5 milhões de movimentos migratórios em seus postos de fronteira e aeroportos, segundo dados oficiais.

O que mudou é a natureza de parte desse deslocamento.

Para alguns brasileiros, o país deixou de ser apenas o lugar onde se compra. Passou a ser o lugar onde se trabalha, se abre uma empresa, se matriculam os filhos e se estabelece residência.

A legislação do Mercosul também facilita a regularização de brasileiros interessados em permanecer no país. O Paraguai oferece modalidades de residência temporária e permanente para cidadãos dos países integrantes do acordo regional, incluindo o Brasil.

O Paraguai além das vitrines

A transformação ainda é recente e não significa que todos os brasileiros que chegam ao país pretendam permanecer definitivamente. Também há diferenças importantes entre morar no Paraguai e simplesmente atravessar a fronteira para fazer compras.

A adaptação envolve documentação, trabalho, moradia, educação, saúde e integração a uma realidade econômica e cultural diferente.

Por isso, as filas da imigração contam uma história que não aparece nas vitrines de Ciudad del Este.

A Ponte da Amizade continua recebendo consumidores brasileiros. Mas, cada vez mais, também é atravessada por pessoas que carregam documentos, planos de negócios, contratos de aluguel e projetos de vida.

O Paraguai que aparece desse lado da fronteira já não é apenas o destino das compras de fim de semana. Para milhares de brasileiros, é também o lugar onde começa uma tentativa de recomeço.

Por: Jornalista Josimar Loureiro

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