Agosto Lilás: a igreja e a violência contra a mulher

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Brasil registra 1.571 feminicídios em 2025, maior número da série histórica. - Foto: Reprodução IA

Campanha nacional reforça a importância da denúncia e desafia igrejas a acolher vítimas, prevenir abusos e promover relacionamentos pautados no amor bíblico

Agosto chega tingido de lilás para lembrar uma realidade que continua desafiando o Brasil: a violência contra a mulher. A campanha nacional, criada em referência ao aniversário da Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, mobiliza governos, instituições e a sociedade para conscientizar sobre os diferentes tipos de agressão, incentivar denúncias e fortalecer a rede de proteção às vítimas.

Vinte anos após a criação da lei, os números mostram que o problema continua alarmante. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o país registrou 1.571 feminicídios em 2025, o maior número da série histórica, o equivalente a uma mulher assassinada aproximadamente a cada cinco horas. Além disso, foram contabilizadas 4.189 tentativas de feminicídio, outro recorde nacional. No primeiro semestre de 2026, o Ministério da Justiça registrou 741 feminicídios, uma redução de 2,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, mas ainda um número que evidencia a gravidade da violência doméstica no país.

Ao mesmo tempo, o Ligue 180, principal canal de atendimento às mulheres, realizou mais de 590 mil atendimentos em 2025, recebendo mais de 86 mil denúncias relacionadas à violência de gênero. Os dados reforçam uma característica recorrente dessas ocorrências: na maioria dos casos, o agressor é alguém conhecido da vítima, geralmente o companheiro ou ex-companheiro, e os crimes acontecem dentro da própria residência, local que deveria representar segurança e acolhimento.

Embora muitas pessoas associem a violência doméstica a famílias desestruturadas ou afastadas da fé, especialistas alertam que essa realidade também pode estar presente em lares cristãos, inclusive envolvendo pessoas que exercem funções de liderança nas igrejas.

“Em mais de 26 anos trabalhando com pessoas, já ouvi essa história muitas vezes. Mulheres que chegam até mim carregando uma ferida dupla: a da agressão e a da confusão de não entender como aquilo é possível dentro de uma casa onde se ora, se lê a Bíblia, onde o marido lidera uma célula”, afirma a psicóloga Martha Zouain, especialista em neuroaprendizagem e comportamento humano.

Segundo ela, a espiritualidade é fundamental, mas não substitui o tratamento das questões emocionais que alimentam comportamentos violentos.

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“A fé move montanhas, mas não reorganiza sozinha circuitos emocionais que foram formados ao longo de anos. Raiva mal regulada, necessidade de controle e incapacidade de lidar com a frustração são padrões que nascem na infância, se consolidam no sistema nervoso e não desaparecem com uma oração, por mais sincera que ela seja.”

A especialista destaca que muitas vítimas permanecem em silêncio porque o agressor ocupa uma posição de respeito dentro da comunidade cristã.

“Quando ouço isso, sinto um aperto no peito. Porque essa mulher está sozinha num dos momentos mais difíceis da vida e ainda carrega nas costas o peso da imagem do marido, da família e da congregação. A verdadeira reputação de um líder não se constrói no palco, diante da igreja. Ela se revela no quarto, na cozinha, na forma como trata quem não pode cobrar nada dele. Um homem que agride em casa e lidera na frente não tem reputação a proteger, tem uma mentira a sustentar.”

Essa reflexão dialoga com o ensino bíblico de 1 Timóteo 3:4-5, que afirma que aquele que deseja liderar o povo de Deus deve primeiro governar bem a própria casa. Também encontra respaldo em Efésios 5:25, onde o apóstolo Paulo orienta os maridos a amarem suas esposas “assim como Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela”. Em nenhum momento a Bíblia autoriza o uso da violência ou do autoritarismo como expressão de liderança.

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Violência aprendida dentro de casa

Outro aspecto importante destacado por Martha Zouain é o impacto da violência sobre os filhos. “As crianças não aprendem o que ouvem. Aprendem o que veem. O relacionamento dos pais é o primeiro modelo de amor que elas recebem, e é esse modelo que vai ecoar nos relacionamentos delas por toda a vida.”

Ela explica que o ambiente familiar influencia diretamente o desenvolvimento emocional. “Pais que discordam sem se agredir, que pedem desculpas quando erram, que dividem o peso da casa e da vida, que nomeiam o que sentem… isso forma o cérebro emocional de uma criança.”

Para ela, é necessário rever a maneira como meninos e meninas são educados. “Para os meninos, precisamos abandonar a educação emocional que ainda ensina que sentir é fraqueza e que controlar é amor. Isso não é criar um filho, é moldar um futuro agressor sem perceber. Para as meninas, precisamos ensiná-las, desde cedo, que amor que dói não é amor. Que limite é dignidade, não ingratidão. Que pedir ajuda é um ato de coragem.”

As declarações encontram respaldo em pesquisas nacionais e internacionais que mostram que crianças expostas à violência doméstica apresentam maior risco de reproduzir relacionamentos abusivos na vida adulta, seja como vítimas ou agressores.

O papel da igreja

Para Martha Zouain, as igrejas possuem uma oportunidade única de atuar na prevenção. “A igreja tem um papel importante em ensinar não somente a Palavra, mas os princípios e valores. Promover encontros de famílias onde esses temas sejam abordados, oferecer cursos que ensinem como ser pai, como ser mãe, como criar filhos dentro de princípios. O líder principal da igreja tem uma força fundamental. O que ele fala geralmente é verdade para os membros. Então é importante que o pastor pense nessas abordagens mais familiares e educativas.”

Ela também defende que as comunidades cristãs estejam preparadas para acolher vítimas de forma responsável. “As igrejas precisam criar espaços seguros, conduzidos por profissionais de saúde mental, onde essa mulher possa falar sem medo de julgamento e sem o risco de tudo chegar ao marido no culto seguinte. Pastores, líderes e voluntários precisam aprender a identificar sinais de violência doméstica e saber como agir, não com ‘ore e perdoe’ quando há risco de vida, mas com encaminhamentos sérios, profissionais e humanizados.”

A psicóloga conclui lembrando que o alcance das igrejas representa uma grande responsabilidade. “A igreja chega onde o Estado não chega. Ela acolhe quando a família rejeita. Esse alcance é um presente e também uma responsabilidade enorme. Nenhum cargo, nenhum talento ministerial e nenhuma aparência de família perfeita tem mais valor do que a vida e a dignidade de uma mulher. Quando a igreja acreditar nisso de verdade, e agir de acordo, muita coisa vai mudar.”

Fé não elimina a necessidade de ajuda

A pastora Aline Santos, da Igreja Batista Atitude, na Barra da Tijuca (RJ), reconhece que o tema ainda é cercado de constrangimento dentro das igrejas.

“É realmente muito delicado falar sobre isso, porque esse homem ocupa um lugar de destaque dentro da igreja por ser um líder. Se alguém fala de uma agressão, de algo que fere os princípios da Palavra, vai ser um escândalo. A primeira reputação que esse pastor, esse líder religioso, deve resguardar é a dele como esposo, como pai, como marido e não como líder religioso.”

Ela ressalta que ser cristão não torna alguém automaticamente imune ao pecado. “Eu acho compreensível que as pessoas pensem que, por ser cristã, a pessoa deveria ter comportamentos diferentes. Porém, a própria Palavra diz que todos nós somos homens da carne e a nossa carne é fraca. O pecado superabundou naquele que infelizmente já nasceu do pecado.”

Por isso, afirma, é preciso avaliar os fatos e não criar uma falsa sensação de segurança baseada apenas na religiosidade. “Infelizmente não dá para julgar a pessoa simplesmente porque ela é ou não cristã. Baseado nisso não teremos evidência se essa pessoa é realmente íntegra em todos os aspectos.”

Aline também compartilha sua própria história. “Estudos já comprovaram que tanto a menina como o menino vão reproduzir na idade adulta aquilo que vivenciaram enquanto criança. Eu venho de um lar disfuncional, onde a minha mãe era agredida pelo meu pai. Eu vivi essa disfunção na pele.”

Hoje, ela afirma que o ciclo pode ser rompido. “Existe uma saída. Ela não é fácil. É ressignificar a sua história com terapias, com tratamento e com Deus. Eu sou a prova viva disso.”

Seu testemunho reforça o ensino de 2 Coríntios 5:17, que aponta para a transformação promovida por Cristo, sem desprezar o cuidado integral da pessoa. A fé pode caminhar lado a lado com acompanhamento psicológico, assistência social e proteção legal.

A violência não pode ser tratada como assunto privado

A Bíblia condena toda forma de violência e abuso contra o próximo. Em Colossenses 3:19, Paulo orienta: “Maridos, amem suas esposas e não as tratem com amargura”. Já Miqueias 6:8 resume o chamado de Deus para que seu povo pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com Ele.

Nesse contexto, o Agosto Lilás convida também as igrejas a refletirem sobre sua responsabilidade. Silenciar diante da violência, minimizar denúncias ou priorizar a preservação da imagem institucional em detrimento da proteção das vítimas contraria os princípios do Evangelho.

Mais do que uma campanha de conscientização, o mês representa um chamado para que famílias, igrejas e toda a sociedade promovam relacionamentos marcados pelo respeito, pela dignidade e pelo amor, rompendo o ciclo da violência e oferecendo acolhimento àquelas que precisam de proteção.

Como denunciar

Ligue 180
Canal nacional de atendimento à mulher.
Funciona 24 horas por dia para orientações, denúncias e encaminhamentos.

Polícia Militar
190, em situações de emergência.

Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs)
Realizam registros de ocorrência e solicitam medidas protetivas.

Ministério Público e Defensoria Pública
Também integram a rede de proteção às vítimas.7Por Cristiano Stefenoni– Comunhão

Por Cristiano Stefenoni– Comunhão

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