Produtora de “Dark Horse” afirma ter sido pressionada a fazer delação premiada
Karina Ferreira da Gama registrou em cartório relato sobre três abordagens que, segundo ela, apresentaram a colaboração como forma de evitar possíveis complicações judiciais; empresários e jornalistas citados negam ou não comentaram as acusações
A empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse, afirmou ter sido pressionada para realizar uma delação premiada relacionada à produção da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. O relato consta de um documento de sete páginas, assinado e registrado em cartório em setembro.
Segundo Karina, foram três contatos, realizados entre maio e setembro de 2026, nos quais a possibilidade de colaboração premiada teria sido apresentada como uma maneira de evitar possíveis consequências judiciais ou até uma operação policial. A empresária declarou, entretanto, que não aceitou as propostas e que pretende colaborar com as investigações por meio de sua defesa técnica.
Empresário é citado no documento
De acordo com o relato, o primeiro contato teria ocorrido em maio e envolvido Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney. Karina afirmou que ele teria oferecido apoio jurídico e mencionado proximidade com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, sugerindo que poderia ajudá-la caso tivesse interesse em fazer uma delação.
No próprio documento, porém, Karina fez uma ressalva: afirmou não ter presenciado qualquer conversa entre Sarney e Dino e não possuir elementos que permitissem afirmar que o ministro tivesse conhecimento ou participação na abordagem.
Fernando Sarney negou o contato. Em declaração divulgada pela CNN, afirmou que não conhece Karina e que jamais manteve contato com ela ou com qualquer pessoa para tratar de uma suposta delação relacionada ao filme.
Segundo contato teria partido de um pastor
A empresária também relatou uma segunda abordagem, em agosto, atribuída a um pastor e amigo de longa data. Segundo Karina, o interlocutor teria afirmado possuir proximidade com integrantes do governo federal e ministros do STF e transmitido a ela a possibilidade de uma colaboração premiada.
Ainda de acordo com o documento, a delação teria sido apresentada como uma alternativa para evitar uma possível “complicação” ou eventual operação policial. Karina disse ter recusado a sugestão e sustentado que a cadeia de produção do filme ocorreu dentro da legalidade.
Jornalista também teria feito abordagem
O terceiro episódio teria ocorrido em setembro e envolvido um jornalista da revista Piauí. Conforme o relato da produtora, o profissional teria dito que ela estaria sendo usada como “bucha de canhão para o candidato” e dado a entender que poderia sofrer medidas judiciais caso não colaborasse.
A revista Piauí, procurada pela CNN, informou que não se manifestaria sobre o caso.
Karina afirmou que decidiu formalizar os relatos em cartório por receio de sofrer retaliações judiciais ou interferências políticas em razão de ter recusado acusações que considera inverídicas. O documento, segundo a CNN, foi registrado antes da deflagração da operação policial que atingiu a produtora.
Operação Make Up
O caso ganhou repercussão após a Polícia Federal deflagrar, em 10 de setembro, a Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino. A operação investiga suspeitas de desvios de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares e possíveis irregularidades envolvendo entidades ligadas à produtora.
Karina Gama e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) estão entre os alvos da operação. Ao todo, foram expedidos 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. O Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC), ligados a Karina, também foram alvo das buscas.
Segundo a Polícia Federal, a investigação apura possíveis crimes como peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios, relacionados a recursos públicos e contratos. As autoridades afirmam investigar uma estrutura que teria utilizado recursos de forma irregular e sem a devida comprovação da execução dos projetos.
A investigação também examina a movimentação de recursos que teriam chegado à produtora por meio de empresas contratadas com verbas de emendas parlamentares. Mario Frias, que participou da produção de Dark Horse, é investigado no caso e nega irregularidades.
O relato de Karina sobre as supostas pressões para uma delação, entretanto, constitui a versão apresentada pela própria empresária e ainda não comprova, por si só, qualquer interferência de autoridades públicas. As circunstâncias das abordagens deverão ser avaliadas no decorrer das investigações.

